
Entre todas as medicinas tradicionais, a medicina tradicional chinesa (MTC) destaca-se no Ocidente devido à grande penetração da sua cultura e das técnicas naturais e de integração na natureza, visando o restabelecimento do equilíbrio físico, mental e espiritual do ser humano em si e a unidade maior do ser humano com a natureza e com o Tao (o caminho). Mesmo vivendo em grandes cidades, a nossa sobrevivência depende totalmente da natureza: a alimentação, o clima, a água e o próprio ar que respiramos são proporcionados pela natureza. Viver em integração os seus ritmos e ciclos faz parte do bem viver e das técnicas que a sabedoria chinesa milenar desenvolveu para buscar esta integração. Entre elas podemos destacar a acupunctura, o Tai Chi Chuan, o Qi Gong (pronuncia-se «ti kun»), a fitoterapia chinesa e o Feng Shui, entre outras.
Por ser a base de várias técnicas diferentes em expressão, embora fundamentadas nos mesmos princípios, iniciamos este artigo com uma aproximação à filosofia por detrás da Medicina Tradicional Chinesa.

A base filosófica de todas estas técnicas está no taoismo, iniciado por Lao-Tse, considerado o pai desta filosofia. A sua figura está rodeada de uma grande mística, mas sabe-se que viveu entre os séculos V e VI a.C. e que foi arquivista da corte à época do Império Tchu. Diz a lenda que renunciou ao cargo que ocupava, montou um búfalo e partiu. Quando chegou à fronteira, o guarda exigiu-lhe um tributo para permitir a sua passagem. Foi então que o sábio escreveu o Tao Te Ching, o livro sagrado do taoismo, e o entregou ao guarda. Desde então nunca mais foi visto.
O Tao Te Ching (O Livro do Caminho) contém cinco mil ideogramas, com os quais Lao-Tse expõe de maneira muito simples e clara os preceitos, ou princípios, que definem a filosofia e a prática que leva ao Tao. É uma obra clássica. Lao-Tse absorveu os ensinamentos dos antigos no desenvolvimento dos conceitos filosóficos e comportamentais que fundamentam a sua compreensão da vida, do mundo e do homem. Diz ele: «Os antigos é que possuíam o caminho. Não procuravam, de maneira nenhuma, esclarecer o povo; procuravam torná-lo mais simples.» O conhecimento antigo a que se refere está sintetizado no I Ching, o livro das mutações, o livro que contém as bases do pensamento chinês.
A palavra «Tao» pode ser traduzida, num sentido vernáculo, como «caminho» e «sentido». Pode ser entendida como o caminho de transformação do homem, a busca da unidade consigo mesmo, com os outros e com a natureza; é a integração. Segundo o taoismo, pela prática do Wu-wei, a não-acção, podemos encontrar o Tao. O Wu-wei não significa a passividade, mas o entendimento do movimento natural e integrado com o céu e a terra; é o movimento que executam ao curvar-se que permite às árvores não serem arrancadas do solo quando o vento sopra com força. Viver no Tao é caminhar de acordo com o céu e a terra, é o caminho do meio. Segundo Lao-Tse: «O sábio governa através da não intervenção, ensina através do não falar […] termina a sua obra sem se apegar a ela. Como não se apega a ela, continua.» A natureza no Wu-wei simboliza um estado de completude pela aceitação da sabedoria e do amparo do universo; na medida em que estamos inteiros com o céu e a terra, o céu e a terra tornam-se o próprio caminho. Não há separação, os ciclos fazem parte do processo de transformação em toda natureza. Aceitá-los e com eles fluir é a prática do Wu-wei que leva à experiência do Tao, a união no todo. O Tao não pode ser definido, é inexprimível em palavras, pois é experiência interior, estado de ser e estar de cada um, apreensão: «O Tao que pode ser expresso não é o Tao eterno.» Os seus atributos assemelham-no à noção ocidental de Deus: é causa primeira, totalidade, princípio que engendra o mundo, criação manifesta em tudo.
Directa ou indirectamente, somos influenciados pelos ciclos da natureza. A qualidade desta relação determina o nosso grau de harmonia e de saúde. As diferentes partes do homem, da mais subtil à mais densa, também estão inter-relacionadas, formando uma unidade, onde as emoções e os pensamentos (o subtil) influenciam o funcionamento dos diferentes sistemas orgânicos (o corpo físico), e vice-versa. O que faz a interligação entre as duas partes é a energia que circula no corpo, o chi. Equilibrando esta energia, tendemos igualmente para a harmonia física e mental.
A fim de obter este equilíbrio, foram desenvolvidas diferentes técnicas para eliminar a energia em excesso, desbloquear a energia estagnada, distribuir a energia boa harmoniosamente e absorvê-la em maior quantidade e qualidade. Os meios que utilizamos – exercícios respiratórios e físicos, massagens, acupunctura, dieta e fitoterapia – são diferentes, mas seguem um mesmo princípio: o equilíbrio interno entre espírito, energia (sopro) e essência, e a visão harmoniosa do homem com a natureza.
A medicina tradicional chinesa (MTC), também conhecida como medicina chinesa (em chinês 中醫, zhōngyī xué, ou 中藥學, zhōngyaò xué), é então a denominação usualmente dada ao conjunto de práticas de medicina tradicional em uso na China, desenvolvidas ao longo dos milhares de anos de sua história. A MTC é considerada uma das mais antigas formas de medicina oriental, termo que engloba também as outras medicinas da Ásia, como os sistemas médicos tradicionais do Japão, da Coréia, do Tibete e da Mongólia.

Existem várias técnicas e terapias intimamente ligadas (ou exclusivamente ligadas) à Medicina Tradicional Chinesa. A seguir salientamos as principais:
Segundo os ensinamentos base da Medicina Tradicional Chinesa o diagnóstico segue uma ordem lógica à qual o terapeuta devrá tomar extrema atenção a cada passo: observar (望 wàng), ouvir e cheirar (聞 wén), perguntar sobre o histórico do paciente (問 wèn), palpar o pulso, tórax e abdómen, restantes partes do
corpo, os canais, os ductos e os pontos (切 qiè). Assim é de fulcral importância passos como: a observação da face do paciente, a observação da aparência dos olhos do paciente, a oservação da aparência da língua do paciente, a observação superficial da orelha, a audição do som da voz do paciente, a tomada do pulso da artéria radial do paciente em seis posições distintas para avaliar o fluxo de energia em cada meridiano, a palpação do corpo do paciente, as comparações da temperatura em diferentes partes do corpo do paciente e tudo mais que possa ser observado sem instrumentos e sem ferir o paciente, como uma conversa levantando seu histórico de saúde e suas queixas actuais.
Para trabalhar com os sistemas de diagnósticos da MTC é preciso desenvolver a habilidade de observar aparências subtis, observar o que está à nossa frente mas escapa da observação da maioria das pessoas. Para isto o terapeuta deve ser conhecedor dos princípios básicos teóricos e milenares:
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