Mulan desmistificada

MULAN

Um dos filmes mais apreciados pelo público juvenil da Disney é sem dúvida o trigésimo-sexto filme de animação lançado por Wlat Disney em 1998: Mulan.

Se por um lado esta história não sofre de uma origem negra, dúbia e sádica como uma Rapunzel ou Cinderella, por outro não tem o peso sexual do Capuchinho Vermelho ou os macabros meandros da Branca-de-Neve ou o Flautista de Hamelin. No entanto, e mais até, esta história também possui factos por detrás de si mesma e que são baseados em mitos e lendas extremamente enraizados na história da China.

Para quem não viu, os Hunos, que são liderados pelo implacável Shan Yu, invadem a China na época da Dinastia Wei do Norte, passando a Grande Muralha. O imperador chinês ordena uma mobilização geral, com notificações de recrutamento exigindo que um homem de cada família se junte ao exército chinês. Quando Fa Mulan ouve que seu pai idoso Fa Zhou, o único homem de sua família e um veterano do exército, está mais uma vez para ir à guerra, ela fica ansiosa e apreensiva devido à sua saúde enfraquecida. Tomando a antiga armadura de seu pai, ela disfarça-se de homem para se poder alistar em vez de ser mãe e seguir as tradições femeninas do costume. A família rapidamente descobre sua partida, e a avó de Mulan reza para os antepassados ​​da família pela sua segurança. Os ancestrais ordenam seu “grande dragão de pedra” para proteger Mulan. Um pequeno dragão chamado Mushu, um ex-guardião desonrado, é enviado para despertar o dragão de pedra, mas acidentalmente destrói-o durante o processo, que depois esconde dos seus ancestrais e resolve proteger ele próprio Mulan.

A história tem momentos deliciosos de comédia e sérias aproximações a temáticas como a identificação de género e a misogenia. O que é até curioso dado que é a própria Disney a causadora dos principais fossos entre o género masculino e feminino na nossa sociedade ocidental.

Vamos a FACTOS!

A dramática história real

Como disse, esta história da Disney possui uma história factual e real por detrás de si mesma. Hua Mulan é uma das mais conhecidas mulheres lendárias do Oriente, em especial da China. As suas acções heróicas foram registadas em textos milenares e são repetidas vezes sem conta através do fabuloso poema “A Balada de Mulan” [木蘭辭].
Este poema é aprendizagem obrigatória nas escolas chinesas e foi composto no século VII, durante a maior parte do qual a dinastia Tang (618-907) governou a China. A colecção de cantos à qual pertencia Hua Mulan originalmente perdeu-se, no entanto, preserva-se hoje uma versão posterior, incluída numa antologia de poemas líricos e baladas compilada por Guo Maoqian no século XI ou XII.

Em chinês “Huā” significa FLOR e “Mùlán” significa Magnólia o que apresenta uma simbologia essencial já que a flor da Magnólia é ainda hoje um dos símbolos nacionais da China.
As primeiras menções a Mulan aparecem na obra “História dos Ming” e percebe-se que o seu nome de família seria Zhu, porém mais tarde na obra “História dos Qing” o nome de família aprece diferente como sendo Wei. Apesar destas diferenças que se apresentam de aparente intervenção política nas guerras internas das casas reais das dinastias, o que é seguro e certo é que a sua história terá tido lugar algures entre o quarto e o quinto século.

Como já mencionei a “Balada de Mulan” é hoje parte integrante de uma antologia de músicas, poemas e obras líricas muito ao género dos cancioneiros portugueses, só que acaba rapidamente por se tornar o poema mais dramatizado que ao longo dos séculos se torna numa obra teatral independente que acaba por influenciar um enorme número de obras célebres na China.
Claro está que toda esta evolução lhe atribui vários detalhes romanceados e acrescentados de obra para obra e é por isso importante reter apenas o que é comum a todas estas histórias.

«Mulan estava a lavar as roupas da família quando ouviu que o exército iria recrutar novos soldados e para salvar o seu pai cansado e fraco decidiu transformar-se no filho que nunca foi e tomar o seu lugar no recrutamento.
Durante o recrutamento as peripécias são várias, mas um dos pontos altos é quando chega ao campo de batalha carregando a espada dos seus ancestrais e onde acabaria por lutar durante mais de uma década, ganhando mérito e recusando qualquer recompensa.
Mulan sente-se apaixonada por um oficial que conheceu durante a guerra (Jin Yong)… Ela própria acabaria por ser agraciada com o título de general e Jin Yong acaba por descobrir que Mulan é mulher. Em conjunto sonham ficar juntos e constituir família, mas a mentira e o disfarce impede-os de o fazer até que Mulan decide um dia aparecer em combate vestida de mulher e os soldados reconhecendo a sua verdadeira identidade mantiveram uma atitude de extremo respeito e maior admiração, impressionados com a sua bravura, graça e sabedoria. O resultado foi surpreendente e o exército inspirado obteve uma vitória lendária.
Depois de tudo isto o Imperador quis conhecê-la, surpreso que um dos seus melhores guerreiros era afinal uma mulher. Entre as maravilhosas recompensas, Mulan quis apenas um cavalo e poder voltar a casa.
Regressada descobre que o seu pai havia falecido e em vez de se sentir uma heroína sente que fracassou como filha e como mulher. As trevas derrubam-se sobre ela e considera que até o amor da sua vida deveria ser poupado de ter uma mulher que não o é e pela honra dele e assombrada pelos fantasmas da guerra Mulan decide suicidar-se.»

De facto, o final da história não ilumina muito as mentes que esperavam um final feliz e a vitória da igualdade dos sexos, porém não nos podemos esquecer do forte peso cultural e histórico que ainda assim não conseguiu destruir esta lenda.
Mulan pode não ter recebido nenhuma recompensa real ou ter ficado com o seu príncipe, porém como princesa da Disney arrecadou 23 milhões de dólares só no dia da sua estreia como filme do ano.

A título de curiosidade é importante acrescentar que o filme não foi bem recebido pelos chineses e a versão da Disney foi até considerada diminuidora e redutora… na verdade seria a mesma coisa que a Disney lançar um filme sobre D.Sebastião e dar-lhe um macaquinho protector que faz magias enquanto ele tenta conquistar Ceuta.

De heroína atormentada e autêntica lenda na China a princesinha da Disney… Mulan continua a ser um bom símbolo de igualdade de género ainda assim.

Mas não acredite em nada que leu…
Investigue!

[CONTRA FACTOS…]

Uma rubrica escrita em tom de crónica mordaz baseada em factos que pretendem oferecer uma visão mais realista sobre a verdade das coisas. Na era da informação a ignorância é uma escolha!

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